Ao Sul do Equador: a lusofonia gostosa dos Ohxalá

Na saga dos 39 anos do GrETUA, o set dos Ohxalá promete colorir o Mercado Negro com pompa, circunstância e um pouco de sotaque.

Texto: Luís Dixe Masquete ● Fotos: Carla Bessa

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O GrETUA faz anos mas não sopra as velas a solo. Numa altura em que o ‘hype‘ engole o espaço como epicentro da cultura em Aveiro, as comemorações ganham uma dimensão municipal em modo de homenagear os restantes espaços que, neste último ano, cresceram de mãos dadas p’ra tornar esta cidade um bocado mais habitável.

E começa logo p’lo dia 1 dos festejos.

O Mercado Negro, os seus concertos e a sua “loca movida” pareciam um fóssil nas nossas memórias (quase) longínquas, até que uma nova aura tomou conta do tasco mais cool da cidade p’ra o ver renascer.

Nos concertos, temos quota parte de culpa numa menage à trois com a Covil e a Certeza da Música, mas disto falamos noutra ocasião (no artigo aqui ao lado, vá). Por mais que a polícia estacione a seu batmobile à porta, nunca ninguém deixou de dançar naquela sala de pança virada p’ra Ria. Á world-music com centro no afro-beat a bombar do PA, os dj-set’s sempre foram aposta da casa e imagem de marca das noites de Sábado, p’lo que aqui temos também uma forma de agradecer ao Sr. António, à Sofia (desculpa os cigarros que te cravo), ao Marcelo, à Jessica e restante staff por nunca nos deixarem em silêncio.

E nesta Sexta-Feira, 6 de Abril, e logo após o concerto de Mr. Gallini, o agradecimento final faz-se com o melhor dj-set que poderíamos oferecer:

Vindos do CP Urbano Porto – Aveiro, os Ohxalá regressam a Aveiro depois de fazerem do GrETUA uma ligação alfa-pendular entre todos os pontos lusófonos dos Trópicos. E quem ’teve no AVEIROSHIMA de Natal sabe bem que isto não é lábia, nem maneirismos de linguagem, tamanho foi o ângulo a que as nossas ancas foram. Foi sair da caixa negra e perguntar logo ao João Peça: “Quem caralho são estes gajos?”.

@s gaj@s são Luís e Maria, começaram isto na Alemanha, regressaram ao Porto, e a julgar p’la ginga das suas mixtapes, quanto mais a Sul melhor.

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Ohxalá é mais do que uns toques de dança com pano de fundo exótico. É uma nova linguagem étnica de uma electrónica mestiça, desta vaga recente que nos tem dado artistas como Branko, Nidia ou Nigga Fox (recentemente recrutado p’la gigante Warp). Neste século que, definitivamente marca um “antes e depois” de Buraka Som Sistema, a música popular africana (tipo, a real tradicional) tem vindo a sair da penumbra a uma velocidade incrivelmente superior ao equivalente literário.

Aqui, o 25 de Abril veio abrir as portas ao que haveriam de baptizar de “literatura pós-colonial“, desde a Guiné-Bissau a Moçambique e ao fulgor de escritores afro-culturalistas, contestatários e silenciados do/por o antigo regime.

Mas no que à música diz respeito, a última década conseguiu quebrar as barreiras que 40 anos após a descolonização, a literatura não alcançou.

Esta dupla consegue ir mais longe, e em Maio de 2017 “O Futuro do Passado” (editado p’la brasileira Casa Caos) transcreve à letra o nome do EP de estreia, numa viagem ao passado ultra-marítimo e pan-continental da cultura portuguesa, conquistando igualmente o mundo, mas em formato de mixtape.

Ao conjugar a diversidade musical de tradicionalismos brasileiros e africanos, os Ohxalá atravessam o techno-house com um verdadeiro sentido de lusofonia. Podemos até questionar este mito de “lusofonia” , no campo político, de cooperação/integração económica, reconciliação histórica e/ou no intercâmbio cultural. Mas da mais recente vaga de produtores/DJ’s de olhos nos 4 cantos do mundo, podemos confiar a abolição das fronteiras culturais que, quase um século depois, voltam a erguer muros em vez de os quebrar. Caso p’ra dizer: “ohxalá p’los Ohxalá“, e por esta visão romantizada do pan-culturalismo)… desde Luanda a Timor.

E de forma igualmente romântica, há quem diga que os tiros no Ultramar cessavam durante 90 minutos por semana, de cada vez que o Benfica de Eusébio passava na rádio.

Imaginem então o que seria com uma mixtape desta dupla sensação.

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