“Não acredito que o Homem tenha capacidade de governar a si próprio”

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Allen Halloween nasceu no rap, cresceu nos nossos mp3 e carburou a textura ilírica das suas rimas com o lançamento de ‘Híbrido’ em 2015.  O disco, mestiço no nome e nos reflexos que traça da rua, apresentou um Portugal a nu que ainda não parou de cobrir com concertos de Norte a Sul. Foi também despido de tabus que parou n’A Mosca com o Alexandre Pinto, numa entrevista disponível em podcast.

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Como foi colaborar com o General D? Querias fazer isto há algum tempo.

Ele ter participado no ‘Híbrido’ foi grande orgulho, nem existe aquela cena de ter o cota a participar. Considero-me uma espécie de seguidor do que ele começou e muita gente tentou matar. Até fizemos uma track na onda daquilo que ele fez e daquilo que eu faço.

Quando falas dele falas como referência. Que tipo de influência teve o General D como rapper ou cidadão?

Era diferente. Quando ele apareceu a cantar parecia saber aquilo que o rap devia ser. Eu tenho aquela ideia de que os rappers daquele tempo queriam agradar as pessoas com raps para as entreter. Mas o General D não aparecia para agradar ou fazer rir (..) o rap era como se fosse uma arma para dizer a verdade, nunca para agradar as multidões. Embora gostasse dos outros rappers. Era criança, né? Gostava do ‘sabe nadar, yó’ e de todos esses raps.

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Dizer as coisas que precisam de ser ditas. A tua música sensibiliza ou mostra-se  como acção política ao mostrar outras perspectivas de vida(s)?

As pessoas podem pegar nela e faze-lo, mas nunca foi minha intenção. Talvez quando era jovem e andava perdido na minha ideia de músico; aí posso ter levado a música para a politica. Mas hoje considero-me um homem que sabe o caminho que quer, e a minha musica não procura esse lado politico. Por eu não gosto de politica (..) não acredito na politica. Foco-me nas pessoas, em mudar os seus corações ou simplesmente aquilo que escutam. Não falo em mudanças de sociedade nem nessa onda de esquerda vs direita. Eu acredito na bíblia, e na bíblia diz que o homem não tem capacidade de governar a si próprio.

Jesus Cristo acaba por estar bastante presente nas tuas letras. Foste sempre assim ou expressas-te mais agora?

Eu não sou daquelas pessoas que ouve uma historia ou ideologia, acredita logo e vai em frente. Posso dizer que sei a verdade desde criança, mas andei pelo mundo a ver se era mesmo verdade. Acho que cheguei a uma idade que confirmo aquilo que me disseram. Acreditem nessa ‘verdade’ ou não, todas as nossas vidas são guerras contra a carne: o dinheiro, as mulheres, a vaidade; tudo aquilo que é fácil.

A ‘Livre Arbítrio’representa bem o teu estilo lúcido de relatar situações reais e era a 1ª canção que aconselharia. Mas com tantas crianças nascidas em berços problemáticos e meios onde são coagidas, ainda acreditas no livre arbítrio? Confias na decisão do outro em relação aos demais? Afinal, com 13 anos viste o teu 1º homicídio. 

O livre arbítrio é para qualquer homem. Não se destina ou corrompe apenas nos guetos e nas pessoas menos instruídas. Quando falo em livre arbítrio não me refiro ao pobre do gueto que tem de decidir entre ser bandido ou honesto. Os ricos também têm as suas escolhas e tentações. O rico também pode decidir não ser corrupto como o pai, que rouba a uma escala maior.

Em 2010 chegaste a afirmar que o hip hop em Portugal estava a evoluir lentamente. Mantens essa opinião?

Não falo dos MC’s. Podes andar em Odivelas de uma ponta à outra e encontras mais de 40 bandas. O rap entrou em Portugal há vários anos, e hoje és capaz de ir a uma escola secundária e ver que sei lá, 80% dos miúdos ouvem rap. Mas na televisão quase não vês rap, e quando vês não tem nada a ver. Quando disse isso não falava dos rappers, mas dos media e da pouca projecção que dão ao  hip hop em Portugal.

Ouve a entrevista completa aqui.

Alexandre Junior ●

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